Cidade submersa
É março. Os melhores dias do ano para aproveitar a praia. Que eu conheci durante cinco anos, cada palmo daquele meu pedacinho de areia e mar, que eu sabia quanto oscilava, onde ficavam os buracos, as dunas que descambavam sob as bundas dos moleques felizes descendo velozes por suas areias. Lembro de um longínquo 2003, quando vi uma criança, um menino, correndo feliz em direção ao horizonte azul lá ao fundo, sorrindo, se jogando ao chão porque não doía aquela areia grossa campechana. E naquele momento desejei um filho meu ali. Naquela praia. Crescendo livre, alegre como não fui. Eu, que passei meus dias pueris presa num apartamento, enclausurada, proibida, atrás de grades, olhando prédios e morros no limite da vista, ansiando saber o que haveria além daquilo. Ou simplesmente querendo descer de minhas torres, eu, rapunzel, sem cabelos longos o suficiente pra ser salva dali. Fiquei a observar e lamentar e chorar. O pai que foi embora, levando consigo o amor, o respeito, a admiração. Estes retornariam mais tarde, talvez tarde demais, mas que seja. O estrago estava feito e até hoje me sinto não merecedora. Primeiras vezes atropeladas, porque não poderiam ser perfeitas, por princípio. Tinham de ser assim, tristes, desgastantes, porque não acreditava ser possível algo diferente disso. Hoje duas crianças estão em gestação. Dois seres humanos. Dois bebês que poderiam ser meus e não foram. Porque não era o momento, não é o momento. E me dói esse não, que me faz parecer estéril. De amor, de vida. Se o acaso ocorre por todos os lados, porque não me escolheu? Não sou digna?

1 Comentários:
Acho que não tenho repertório suficiente para entender a motivação desse texto. Mas você escreve bem, e a angústia das suas palavras fizeram escorrer uma gotinha dos meus olhos amendoados. E não foi um cisco que entrou no meu olho. Tô aqui, viu, gata. Bjs.
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