7 de janeiro de 2009

A Caixa de Sapatos

A caixa de sapatos empoeirada estava dentro do baú grande de madeira, encostado embaixo da janela. Marina e Juliana, na flor de seus 14 e 15 anos, respectivamente, ficaram encantadas com o achado, quando na realidade procuravam por uma colcha.

A casa alugada para a temporada de verão na praia estava limpíssima e toda arrumada, mas como havia chovido aquele dia, sentiram frio. Buscaram a colcha e encontraram algo que aqueceria muito mais seus corações.

Hesitaram por alguns segundos até finalmente abrir a caixa de sapatos. Não sabiam se tinham o direito de fuçar em objetos alheios, mas a curiosidade falou mais alto. Passaram a mão sobre a tampa para tirar o excesso de poeira. Abriram. Surpresa.

Em vez de calçados velhos, encontraram curiosos objetos que deveriam pertencer à dona da casa. Uma flor artificial, um arame retorcido que formava o nome de Rosa, uma foto amarelada de uma praia cheia de gente. Marina ficou encantada com aquilo, supondo ser recordações de um amor de verão. Juliana, mais afoita, vasculhou a caixa cheia de quinquilharias _ um par de brincos rústicos, um colar de sementes, papéis _ e finalmente encontrou a prova do que desconfiavam. Era uma carta, de amor.

Dizia o texto _ muito bem escrito e com um inusitado capricho, por ser assinada por um homem _ que Rosa era o amor da vida dele. Felipe, era o seu nome. A carta relatava o encontro dos dois, na praia ao entardecer, quando ela tomava um suco à beira-mar e ele jogava futebol com amigos. Ela estava só e a bola teria ido ao seu encontro. Felipe foi buscá-la prontamente e demorou-se tanto no retorno que os amigos estranharam. Foram ver a razão da delonga e se deram conta: Rosa era uma moça muito bonita e de conversa agradável.

Na carta, juras de amor eterno, que provavelmente durariam mais do que aquele verão. Assinada "com carinho, do seu cravo", a missiva indicaria uma paixão avassaladora. Então por que aqueles objetos, que provavelmente foram presentes dele para ela, estavam ali deixados ao léu, abandonados numa caixa de sapatos empoeirada, dentro do baú pesado de madeira?

Até que Juliana se lembrou que o nome do marido de Dona Rosa era Roberto, e ela já estava viúva havia alguns anos. Provavelmente, o amor de Felipe não deve ter durado além do Carnaval daquele longínquo ano, que não se pode identificar, por falta de data nos documentos.

As duas suspiraram, e apesar de terem ficado felizes com a fortuita descoberta, tornaram-se melancólicas. Elas pensaram em Ricardo e Marcelo, os meninos que conheceram havia duas semanas também na praia, da mesma maneira, por uma bola de futebol perdida.

_ Será que eles, assim como o Felipe da carta, também irão nos abandonar? Ou será que nós não vamos gostar mais deles quando voltarmos para a nossa cidade e retomarmos nossa vida, na escola, na academia, no curso de inglês? _ perguntava Marina.

_ Não sei, mas também, que diferença isso faz agora? Vamos aproveitar e passear bastante com eles e guardar as lembranças do que um dia foi especial, como fez a Dona Rosa _ ponderou Juliana.

E foi neste momento que tocou a campainha. Marina pode ver através do olho mágico da porta, antes de abri-la. Eram seus namorados de praia, Ricardo e Marcelo, cada um com uma flor nas mãos, ansiosos para contar às meninas o dia chato que tiveram e passar o início da noite se divertindo, jogando cartas, para se protegerem do frio e da chuva.

Obs: esta crônica será publicada na Revista de Verão, do DC, mas como é minha mesmo, posto aqui. Achei muito fofa. Deu vontade de escrever um livro.