A morte pede carona
Era o título do filme de terror mais assutador pra ela aos 7 anos de idade. As amigas ofereciam, pegue esse! Ela disfarçava, sorria escondendo o pavor daquilo. Não podia revelar-se frágil. Tal palavra causava um impacto assutador na mente da pobre. Morte.
Ao lado daquele homem, encolhida na poltrona de veludo marrom desbotado, tremia de insegurança. Ele fumava dentro do carro, tinha a barba por fazer e um péssimo humor. Ácido, sempre, e isso a irritava. Oposto do que ela deixara pra trás, no último posto de gasolina na estrada semi-deserta. Talvez uns poucos quilômetros, mas parecia outra existência.
Pudica, cruzou os braços e virou-se. Inquietação, demora. Dissera um nome qualquer de cidade que tinha visto na placa. Depois não falaram mais. Tentava imaginar com que intenções aquele grosso teria lhe feito a gentileza. Poderiam ser as piores. Sozinha, vestida feito carola. Angústia da atenção total voltada ao súbito movimento do estranho. Tremia.
Ser repulsivo e fedido! Parou o carro após oito horas ininterruptas de viagem. Assistiram ao crepúsculo sem pronunciar palavra. Um cheiro de rosas e folhas misturado ao fedor do cigarro e suor masculino excessivo preenchiam os sentidos enquanto a visão se perdia em cores. Bastou um toque.
Deixada no acostamento da estrada de terra, por um homem que disse assim fazer por amá-la, ajeitou-se, arrumou os cabelos com a fivela, cortou um pedaço da saia e as mangas da camisa apertada. Esticou o dedo. Mal podia esperar pelo próximo destino, do qual não tinha a menor idéia. Sorria e tremia.
(inspirado pelo conto "O jogo da carona", de Milan Kundera)

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