Filosofia de Latão
Pensando na vida de casa pro trabalho e do trabalho pra casa
25 de novembro de 2006
16 de novembro de 2006
Cidade dos mortos - II
As crianças seguem morrendo enquanto editores de jornais acham mais importante reclamar do atraso de aviões.
Sol forte, meninas andam nas ruas poeirentas vestidas de biquinis e maiôs. Com o dedo na boca e cabelo desgrenhado, uma delas pára e vê uma fila enorme de carros, dois da imprensa, homens com os filhos na garupa de bicicletas, outros à pé e muitos, quase uma centena de pessoas descendo de um ônibus. Roupas simples, algumas com uma peça preta, a dor e a revolta na tensão dos rostos, contorcidos. A senhora desfalecendo é a expressão do absurdo da situação, o não natural, a mãe enterra a filha. Indignação. Três crianças atropeladas na mesma avenida em três dias.
7 de novembro de 2006
Como não rir?
A primeira linha foi na companhia dela, cabelos cacheados, rosto angelical, conversa suave. Experiências comuns, empatia. Pena que é a viagem mais curta.
Corro para alcançar o Direto, o segundo da noite, e consigo um ótimo assento, ao lado dos preferenciais, parte da frente do veículo, próximo ao motorista, um degrauzinho ao chão no tamanho exato para se acomodar as pernas. Super confortável. (não sei porque se incomodam tanto por eu me ajoelhar para atender o telefone e fazer anotações apoiadas na mesa; é tão confortável quanto a poltrona)
Penso em emoções, sensações incontroláveis, desejos. Também lembro da pressão, de uma suave levantada de véu, que exalou verdades não tão agradáveis. Mas sempre tem alguém pra servir de anjo, e surgiram de todos os lados. Obrigada!
22h57min, perfeito, daqui a pouco tem o Gramal. E esse povo todo esperando sentado? Mudaram o horário de novo e pro meu azar, só teria outro dali a uns 20min. Vento, forte e típico. Ainda bem que não sinto o frio, só o incômodo. Ignoro a fila e entro, fui a primeira a ficar de pé ao poste. Sento no primeiro banco em frente ao cobrador, como gosto, pra apoiar os pés e não ver ninguém. Choro, de alívio, mas logo paro. No meio do trajeto, um sujeito bonachão vestido pronto para o Reveillon, falando enrolado, faz o motorista se demorar numa parada. Ele sobe, receio ser um bêbado chato. E era. E foi a alegria da noite! Espanhol de Madrid, precisava chegar ao Hotel. Assumidamente borracho, disse que caminaba, caminaba y si perdió... Me preguntó si yo hablaba español, lo que respondi que no.
5 de novembro de 2006
A morte pede carona
Era o título do filme de terror mais assutador pra ela aos 7 anos de idade. As amigas ofereciam, pegue esse! Ela disfarçava, sorria escondendo o pavor daquilo. Não podia revelar-se frágil. Tal palavra causava um impacto assutador na mente da pobre. Morte.
Ao lado daquele homem, encolhida na poltrona de veludo marrom desbotado, tremia de insegurança. Ele fumava dentro do carro, tinha a barba por fazer e um péssimo humor. Ácido, sempre, e isso a irritava. Oposto do que ela deixara pra trás, no último posto de gasolina na estrada semi-deserta. Talvez uns poucos quilômetros, mas parecia outra existência.
Pudica, cruzou os braços e virou-se. Inquietação, demora. Dissera um nome qualquer de cidade que tinha visto na placa. Depois não falaram mais. Tentava imaginar com que intenções aquele grosso teria lhe feito a gentileza. Poderiam ser as piores. Sozinha, vestida feito carola. Angústia da atenção total voltada ao súbito movimento do estranho. Tremia.
Ser repulsivo e fedido! Parou o carro após oito horas ininterruptas de viagem. Assistiram ao crepúsculo sem pronunciar palavra. Um cheiro de rosas e folhas misturado ao fedor do cigarro e suor masculino excessivo preenchiam os sentidos enquanto a visão se perdia em cores. Bastou um toque.
Deixada no acostamento da estrada de terra, por um homem que disse assim fazer por amá-la, ajeitou-se, arrumou os cabelos com a fivela, cortou um pedaço da saia e as mangas da camisa apertada. Esticou o dedo. Mal podia esperar pelo próximo destino, do qual não tinha a menor idéia. Sorria e tremia.
(inspirado pelo conto "O jogo da carona", de Milan Kundera)


